O Conselho Federal de Administração (CFA), por meio da Comissão Especial das Mulheres Profissionais de Administração (ADM Mulher), divulgou os resultados da primeira pesquisa do Observatório da Mulher Profissional de Administração. O levantamento ouviu 2.064 mulheres profissionais de Administração registradas em todo o Brasil e traçou um panorama detalhado sobre a trajetória, os desafios e as oportunidades enfrentadas pelas mulheres no mercado de trabalho da Administração.
A pesquisa, realizada entre julho e outubro de 2024, teve como objetivo mapear a realidade das profissionais da Administração, abordando temas como jornada profissional, equilíbrio entre trabalho e família, oportunidades de liderança e perfil socioeconômico. Segundo a coordenadora da Comissão Adm Mulher do CFA, Admª. Rita Silveira, os dados revelam uma realidade que merece atenção.
“Estamos falando de mais de duas mil mulheres profissionais de Administração, em sua maioria com pós-graduação, entre 36 e 55 anos e com ampla experiência no mercado de trabalho. Entre os principais desafios apontados estão a falta de oportunidades oferecidas pelas empresas, a baixa valorização profissional, a concorrência desigual com os homens, situações de assédio moral, dificuldades para conciliar carreira e vida pessoal, discriminação relacionada à maternidade e o etarismo”, destacou a administradora.
Os números da pesquisa são expressivos: 64,9% das respondentes afirmaram enfrentar dificuldades no ambiente de trabalho por serem mulheres e 53,9% relataram já ter sofrido assédio em razão do gênero.
Perfil das Administradoras
Os dados mostram que a maior parte das respondentes está na fase mais madura da carreira. Cerca de 38,13% possuem entre 36 e 45 anos, enquanto 26,02% têm entre 46 e 55 anos.
O nível de qualificação também chama atenção: 59,01% possuem pós-graduação ou MBA, 12,55% têm mestrado e 3,73% concluíram doutorado.
Em relação à renda, 50,3% das profissionais recebem acima de quatro salários mínimos, mas quase metade das respondentes ainda se concentra nas faixas de até quatro salários mínimos.
Reconhecimento profissional ainda é principal obstáculo
Quando questionadas sobre os maiores desafios para avançar na carreira, o principal problema apontado foi a falta de reconhecimento profissional por parte das empresas, mencionada por 30,77% das participantes. Em seguida aparecem a dificuldade para conciliar trabalho e vida pessoal (22,21%) e a discriminação por ser mulher (17,96%).
Os desafios começam ainda no ingresso à profissão. A falta de oportunidades de emprego na área foi apontada por 29,73% das respondentes, seguida pela discriminação de gênero, citada por 21,31%.
“Mas se ficássemos apenas com esses desafios estava bom. Ainda carregamos a cultura do cuidado, onde a sociedade ainda entende que apenas a mulher é responsável em cuidar da vida doméstica e quase não sobra nada de tempo para a sua própria vida.”, explica a coordenadora do Observatório da Mulher Profissional da Administração, Admª Andrea Oliveira Rezende Antinoro.
Ela aponta, ainda, o problema estrutural que desfavorece as mulheres no próprio sistema, hoje, ainda com traços machistas, tal como nossa própria sociedade. “E não culpo os homens, pois são criados e formados por mulheres como nós. Isso é um problema que apenas o tempo poderá nos ajudar a mudar.”, disse.
Discriminação e assédio permanecem presentes
Um dos dados mais expressivos do levantamento revela que 64,92% das administradoras afirmaram já ter enfrentado dificuldades no ambiente de trabalho por serem mulheres. Além disso, 53,92% relataram ter sofrido algum tipo de assédio no trabalho em razão do gênero, evidenciando que o preconceito ainda é uma realidade para grande parte das profissionais da área.
“A pesquisa nos aponta para um cenário em que muitas profissionais percebem a existência de um “teto invisível”: oportunidades existem formalmente, mas o acesso real é percebido como desigual.”, descreve a administradora Andrea Antinoro.
Trabalho e família: uma equação desafiadora
Para Rita, a conciliação entre carreira, família e responsabilidades domésticas continua sendo um dos maiores desafios para as mulheres. Para se ter ideia, mais da metade das respondentes (58,38%) possui filhos.
“Muitas profissionais relataram que precisam equilibrar múltiplas jornadas diariamente, o que impacta diretamente o tempo e a energia disponíveis para investir no crescimento profissional”, conta.

Entre elas, 27,89% afirmaram que precisam se esforçar muito para equilibrar trabalho e família, enquanto 16,41% disseram que as responsabilidades domésticas impactaram diretamente sua capacidade de dedicar tempo e energia ao crescimento profissional.
Outro dado relevante aponta que 10,67% das administradoras já colocaram a carreira em segundo plano por causa das demandas familiares, enquanto 8,22% chegaram a deixar o emprego para cuidar da família.
Liderança feminina encontra barreiras estruturais
O estudo evidencia que as mulheres ainda percebem desigualdades significativas nos espaços de liderança. Para 92,54% das participantes, existe diferença de tratamento entre homens e mulheres em cargos de liderança na área da Administração.
Entre as principais barreiras para a ascensão profissional estão a cultura organizacional que não valoriza a mulher (38,32%), a falta de apoio das lideranças (27,17%) e a dificuldade de acesso a redes de relacionamento profissional (12,87%).
Já os maiores desafios enfrentados por mulheres que ocupam cargos de liderança incluem a pressão para provar competência além do que é exigido dos homens (21,38%), a cultura organizacional pouco inclusiva (19,64%) e a dificuldade para conciliar trabalho e família (16,81%).
Caminhos para ampliar a participação feminina
Na avaliação das próprias administradoras, algumas ações podem contribuir para ampliar a presença das mulheres em posições estratégicas. As medidas mais apontadas foram a implementação de políticas de igualdade de oportunidades (34,88%), programas de mentoria para mulheres em início de carreira (30,83%) e ações de conscientização sobre discriminação no ambiente de trabalho (30,57%).
Andrea ressalta uma conclusão forte que emerge dos dados: a questão central não parece ser falta de qualificação. O problema percebido pelas participantes está mais relacionado a estrutura, cultura organizacional e distribuição desigual das responsabilidades sociais.
“Para o trabalho do Observatório e para o Sistema CFA/CRAs, isso cria uma oportunidade relevante: sair do papel de apenas medir a realidade e avançar para políticas de desenvolvimento da Mulher Profissional de Administração baseadas em evidência.”, diz.
Pesquisa servirá de base para novas iniciativas
De acordo com o relatório, os resultados representam um importante diagnóstico da realidade das mulheres na Administração brasileira e poderão subsidiar futuras pesquisas, programas institucionais e políticas voltadas ao fortalecimento da participação feminina no mercado de trabalho.
Os dados também reforçam a importância da atuação do Sistema CFA/CRAs na valorização das profissionais de Administração, na promoção da equidade de oportunidades e na construção de ambientes organizacionais mais inclusivos, capazes de reconhecer e potencializar a contribuição das mulheres para o desenvolvimento das organizações e da sociedade.
De acordo com Rita, a pesquisa também aponta caminhos para ampliar a valorização e a participação das mulheres em cargos estratégicos. Entre eles estão a promoção da igualdade salarial, a adoção de processos seletivos transparentes para posições de liderança, programas de capacitação contínua, políticas de avaliação baseadas em mérito e ações efetivas de combate ao preconceito, à misoginia e ao etarismo.
“As organizações precisam ouvir as necessidades das mulheres e criar condições para que elas possam exercer seu protagonismo profissional em igualdade de oportunidades, tendo suas competências reconhecidas e valorizadas.”, conclui a coordenadora do ADM Mulher do CFA.
Sobre a Pesquisa
O questionário da pesquisa contou com perguntas fechadas, utilizando modelos de resposta do tipo “sim ou não”, escala Likert de cinco pontos e caixas de seleção. A elaboração das perguntas teve como base estudos acadêmicos sobre empreendedorismo feminino e também a experiência prática das conselheiras envolvidas na iniciativa. Antes da aplicação oficial, foi realizado um pré-teste com dez integrantes da ADM Mulher do CFA para adequação e validação do instrumento de pesquisa.
A coleta de dados ocorreu entre julho e outubro de 2024. O questionário foi encaminhado por e-mail para todas as administradoras registradas no Sistema CFA/CRAs. Ao todo, foram recebidas 2.073 respostas de todos os estados brasileiros. Após a exclusão de nove participantes sem registro no CRA, a pesquisa consolidou uma amostra final de 2.064 respondentes.
A expectativa é que o estudo se torne uma fonte confiável para futuras pesquisas e contribua para a formulação de novas políticas públicas voltadas à equidade de gênero e ao fortalecimento da atuação feminina no mercado de trabalho.
Ana Graciele Gonçalves
Assessoria de Comunicação CFA
