Filósofo destacou os desafios da liderança contemporânea e as transformações nas relações de trabalho
“O Administrador Contemporâneo: Liderança, Mudança e Protagonismo” foi o tema da palestra de abertura do Encontro Latino-Americano de Administração (ENLA 2026), realizada nesta quarta-feira (9), em Brasília. A apresentação foi conduzida pelo filósofo, escritor, professor universitário e palestrante Luiz Felipe Pondé, que também é colunista da Folha de S.Paulo e apresentador do programa Linhas Cruzadas, da TV Cultura.
Ao longo da palestra, Pondé propôs uma reflexão sobre os desafios enfrentados por administradores e líderes em um cenário marcado por mudanças nas relações profissionais, novas expectativas das gerações mais jovens e pela crescente preocupação com a saúde mental no ambiente de trabalho.
Um dos pontos centrais da apresentação foi a crítica à ideia de que a motivação, por si só, seria capaz de solucionar os problemas das organizações. Para Pondé, a cultura da motivação permanente pode produzir efeitos contrários aos desejados quando transforma a necessidade de demonstrar entusiasmo em uma cobrança constante.
“A exigência motivacional contínua gera sofrimento psíquico porque faz com que as pessoas sintam o tempo inteiro que elas estão sendo observadas para ver se elas estão motivadas o bastante.”
Saúde mental em debate
A saúde mental foi apontada como um dos grandes desafios para as organizações no século XXI. Pondé relacionou o tema às transformações que já vêm sendo observadas no ambiente universitário e que, segundo ele, também chegam ao mundo corporativo.
Para o palestrante, não existem soluções rápidas ou fórmulas prontas para lidar com o sofrimento psicológico. A tentativa de resolver questões complexas por meio de processos, técnicas ou modelos motivacionais pode deixar de lado aspectos humanos fundamentais das relações de trabalho.
Nesse contexto, o administrador contemporâneo precisa compreender que as organizações são formadas por pessoas e relações, e não apenas por processos e indicadores de desempenho.
Pondé também chamou atenção para as particularidades da relação entre lideranças e profissionais mais jovens, especialmente integrantes da chamada geração Z. Para ele, a autoridade, nesse cenário, não deve ser compreendida apenas como consequência de um cargo.
“Não é simplesmente porque você é chefe que eles reconhecem em você qualidades que devem respeitar. Você conquista o respeito pela prática cotidiana do que você faz e não pelo título que você tem.”
Características da liderança
Outro conceito destacado durante a palestra foi o da coerência. Pondé argumentou que a incoerência nas decisões e nas relações profissionais pode gerar desmotivação e afetar a confiança dentro das organizações.
“A pessoa percebe que na realidade ela não está sendo reconhecida pelo esforço dela, pela capacidade . Ela percebe que existem outros meios de as pessoas se darem melhor. Isso se chama incoerência.”
Para o filósofo, o administrador precisa compreender que as relações de trabalho possuem uma dimensão ética e afetiva que não pode ser ignorada. A forma como as decisões são tomadas, como as pessoas são tratadas e como os resultados são cobrados interfere diretamente na percepção que os profissionais têm da organização e de suas lideranças.
Nesse sentido, Pondé defendeu uma visão menos baseada em fórmulas prontas e mais atenta à complexidade das relações humanas.
“Sete passos para ser feliz” ou modelos simplificados de comportamento, segundo a reflexão apresentada pelo palestrante, não são suficientes para enfrentar os desafios do século XXI. Para ele, a administração precisa dialogar com conhecimentos produzidos ao longo da história e pelas ciências sociais para compreender melhor as transformações do mundo do trabalho.
Protagonismo e virtude
O conceito de protagonismo também ganhou destaque. Ao recuperar a origem grega da palavra, Pondé explicou que o protagonista é aquele que ocupa a posição central na ação e, portanto, participa ativamente da construção da história.
Para o filósofo, o protagonismo na liderança está relacionado à capacidade de assumir responsabilidades e agir diante dos desafios, e não apenas ao discurso sobre si mesmo.
Pondé também recorreu à filosofia de Aristóteles para destacar a prudência como uma das virtudes fundamentais para quem exerce liderança. Justiça, generosidade e coragem também foram apresentadas como características que podem contribuir para a construção de uma liderança virtuosa.
“Você tem que ver a virtude acontecer diante dos seus olhos porque ela é ação pura. Por isso que se fala que ética é uma ciência da prática, nunca é teoria.”
A palestra de abertura do ENLA 2026, portanto, colocou o administrador diante de uma questão central: como exercer liderança e produzir resultados sem perder de vista a complexidade humana presente nas organizações?
Sobre o Enla
Com o tema “Pacto Latino-Americano pela Administração: Regulação, Inovação e Mercado”, o Encontro Latino-Americano de Administração (ENLA 2026) reúne, em Brasília, representantes de diferentes áreas relacionadas à Administração.
Considerado um dos principais fóruns de debates sobre a Administração na América Latina, o evento retorna ao Brasil depois de mais de duas décadas. Promovido pelo Conselho Federal de Administração (CFA), em parceria com o Conselho Regional de Administração do Distrito Federal (CRA-DF), o ENLA 2026 ocorre entre os dias 9 e 11 de setembro, no Centro de Eventos e Convenções Brasil 21, em Brasília.
A programação reúne especialistas em gestão pública e privada, parlamentares, juristas, professores, pesquisadores, coordenadores de cursos e estudantes, além de dirigentes da Organização Latino-Americana de Administração (OLA) e representantes do Sistema CFA/CRAs.
Ao longo dos três dias, o encontro promove debates sobre os desafios e as oportunidades para a Administração na América Latina, conectando temas como regulação, inovação, mercado, liderança e transformação das organizações.
Adriana Mesquita
Assessoria de Comunicação do CFA
