Enquanto o mercado aguarda regulamentação, empresas vêm antecipando esse debate, reduzindo voluntariamente a jornada de seus trabalhadores
De um lado, o clamor do trabalhador por mais tempo e qualidade de vida. Do outro, a resistência do setor produtivo brasileiro, que calcula o impacto de uma possível mudança na lei. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a proposta de redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas pode elevar os custos com empregados formais em até R$ 267,2 bilhões por ano. O argumento é direto: esse aumento bateria na porta do consumidor.
No meio desse fogo cruzado, a administração profissional surge como saída capaz de equilibrar a balança. Com método e visão estratégica, uma gigante do setor hoteleiro provou que é possível reduzir a jornada sem sufocar a rentabilidade, transformando o que o mercado rotula como “custo” em investimento estratégico.
O movimento pioneiro foi encabeçado por Ana Paula Faure, CEO da Hplus Hotelaria. Ela decidiu não esperar a lei e aboliu, ainda no ano passado, a escala 6×1 em todos os seus hotéis e restaurantes, migrando para modelos mais flexíveis, como 5×2 ou 12×36.
“Fui a primeira rede a fazer isso. Já tem outras que estão se movimentando para isso, mas eu consegui ter esse olhar. Veio a discussão sobre a escala seis por um e o quão era difícil a escala seis por um, ainda mais para as mulheres que a gente sabe que tem, que não deveria ser assim, mas a gente sabe que elas têm um segundo turno em casa, um cuidado em casa ainda”, ressalta.
Para entender a antecipação, é preciso olhar para a trajetória da CEO. Com 40 anos de hotelaria e o título de Mestre em Administração, Ana Paula Faure começou na base — reservas, recepção, eventos. Essa vivência moldou uma visão cirúrgica: quem conhece o processo, entende o cansaço de quem o executa.
“Eu acho importante a gente vivenciar e ter a experiência realmente na prática de todas as áreas do hotel. Então acho que ter feito isso possibilitou, no momento que eu crio a empresa, que sou a diretora executiva da empresa, propiciou ter um olhar mais abrangente para todas as equipes, um olhar mais cuidadoso para a minha equipe, até por eu já ter estado naquelas áreas e já saber, já entender exatamente o que cada um faz”, salienta a gestora.
Na contramão dos temores de muitos empresários, os resultados na Hplus desconstroem a ideia de que reduzir jornada significa aumentar custos. A gerente de RH da rede, Caroline Constantino, apresenta dados que comprovam a eficácia da medida.
“A gente percebeu a retenção de pessoas, a qualidade de vida nesse reflexo de diminuir o número de atestados médicos dentro da empresa. E fora a rotatividade que a gente viu. Esse ramo da hotelaria tem uma rotatividade maior. É comum a nível nacional, quiçá mundial. Mas a gente percebeu que a gente fez a diferença, que as pessoas buscam, que as pessoas procuram ficar mais no nosso ambiente de trabalho”, garante Caroline.
E a inovação não parou na escala de trabalho. Em 2026, a rede segue implementando o aumento da licença-paternidade por conta própria. O objetivo? Permitir que o pai crie conexão com o filho, equilibrando as responsabilidades que historicamente sobrecarregam a mulher.
O resultado do olhar técnico da gestora, aliado à sensibilidade feminina, reflete também na performance do negócio: Brasília, por exemplo, registra uma média anual de 70% na taxa de ocupação, um número robusto que chancela a eficácia da rede.
“Neste ano estive em Berlim, em algumas reuniões sobre tecnologia, e há um ano, na China, em um grupo de missão de hoteleiros, para buscar alternativas e formas de a gente conseguir tornar o nosso trabalho cada vez mais eficiente e passar isso para o hóspede com mais qualidade para ele”, frisa Ana Paula.
A história da Hplus deixa uma lição clara para o mercado: administrar é, acima de tudo, transformar complexidade em resultado, mas sem abrir mão da saúde do seu ativo mais valioso: o capital humano. Ao se antecipar às tendências e sair na frente, a rede colhe os frutos de uma gestão que atrai talentos, fideliza equipes e garante a sustentabilidade do negócio.
Saiba mais sobre outras decisões audaciosas que transformaram a Hplus na maior rede hoteleira do Centro-Oeste no segundo episódio do ADM em Cena.
Adriana Mesquita
Assessoria de Comunicação CFA
