Qual a melhor estratégia para mitigar a disseminação da Covid-19?

Qual a melhor estratégia para mitigar a disseminação da Covid-19?

Nos últimos dias, o presidente da República, Jair Bolsonaro, defendeu o isolamento vertical — separar idosos, pessoas doentes ou com suspeita de infecção — como forma de combater a doença. Com isso, segundo ele, o grupo não teria risco de contrair a Covid-19.

Caso a modalidade vertical fosse empregada no País, instituições educacionais e empresas, em geral, poderiam normalizar seus funcionamentos. O método, no entanto, ignora que há pessoas que não se consideram, ou não sabem, que fazem parte do grupo de risco, e outras que desconhecem serem portadores de qualquer tipo de enfermidade – o que não reduziria o contágio.

Já o isolamento horizontal, adotado no Brasil, prevê o afastamento máximo entre pessoas, a fim de conter a propagação do vírus. Deste modo, com a redução do contato físico e presencial, os infectados com o tempo se recuperariam, e o vírus sairia de circulação.

O Brasil adotou a modalidade horizontal, em razão do fracasso de países como Reino Unido e Holanda, que adotaram o isolamento vertical. A modalidade vertical foi abandonada na Europa, em virtude do rápido crescimento no número de infectados que causaram colapsos nos sistemas de saúde dos dois países.

A previsão de grande impacto econômico, causado pela suspensão das atividades de trabalho, fez com que países europeus atrasassem a decisão de adotar o isolamento horizontal. No entanto, após verificarem também os resultados obtidos na Itália – que no início adotou a parcialidade do confinamento – eles recuaram e mudaram a decisão.

O presidente da França, Emmanuel Macron, e o primeiro ministro de Portugal, António Costa, defendiam escolas abertas, até o início de março, mas ao perceberem os resultados negativos da medida recuaram da ideia. Atualmente, Macron e Costa defendem o isolamento horizontal.

O vírus

De acordo com a doutora em Medicina Epidemiológica e professora da UFRGS, Mariur Gomes Beghetto, o Covid-19 é uma doença provocada pelo vírus SARS-CoV2 (Coronavírus). Os sintomas, segundo a pesquisadora, aparecem por volta do quinto dia após o contágio, e o quadro clínico apresenta síndrome gripal (forte gripe), com manifestações de febre, tosse e dificuldade de respirar nos casos mais graves.

Também são associados à doença sintomas como dor no corpo, congestão e corrimento nasais; além de dor na garganta, náusea, vômitos e diarreia. Existem, ainda, casos de problemas gastrointestinais e, em sua forma mais grave, os pacientes apresentam quadro de linfopenia — espécie de pneumonia, detectado apenas em exames de imagens do tórax.

De acordo com a pesquisadora, quando comparados a outras viroses respiratórias que provocam síndrome gripal, os sintomas clínicos da Covid-19 são difíceis de serem diferenciados. Ela explica que há tendência de que a febre diminua em 3 ou 4 dias — nos casos de viroses causadas por influenzas (gripes em geral) —, mas na Covid-19 a temperatura pode aumentar, ou a febre pode surgir mesmo quando não era um sintoma presente.

A Covid-19 possui letalidade de grau médio (se as pessoas não tiverem problemas de saúde), mas tem capacidade alta de disseminação. Estima-se que cada contaminado transmita o vírus, em média, a pelo menos três pessoas. Ele próprio pode não apresentar os sintomas (assintomático), mas contaminar indistintamente outras pessoas e essas, por sua vez, transmitem o vírus aos seus conhecidos, causando o efeito “espiral ascendente”.

Segundo Mariur, cerca de 85% do contaminados pelo novo Coronavírus apresentarão uma forma mais branda da doença, sem demandar recursos adicionais dos sistemas de saúde. No entanto, os demais (15%) deverão requerer recursos diagnósticos (exames) e terapêuticos (tratamentos) em âmbito hospitalar, sendo que 5% destes necessitarão de terapia intensiva.

“Considerando os limites atuais da rede de atenção à saúde no Brasil, onde há maior demanda do que a capacidade de resposta, o real perigo da doença está em chegarmos em um contexto no qual os profissionais de saúde podem ter de vir a fazer escolhas, já que não haverá recursos para todos”, conclui.

Veja a primeira parte da matéria na edição 135 da revista RBA {revistarba.org.br}

Por Leon Santos