Leia o restante da entrevista do professor Edson Kondo, da Angrad

Leia o restante da entrevista do professor Edson Kondo, da Angrad

Kondo a serviço da Educação

O professor Edson Kondo, presidente recém-eleito da Angrad, e com posse em 2020, foi entrevistado na RBA, edição 132. O pesquisador falou de sua experiência como professor universitário no Japão, as diferenças do ensino – em relação ao Brasil e muito mais. Esta é a segunda parte da entrevista. Leia a primeira parte, aqui, ou acessando o link no final deste texto.

O empreendedorismo e a inovação são temas constantes dentro do CFA. Qual a sua visão sobre esses dois temas e como eles podem ajudar na economia brasileira?

O empreendedorismo é uma disciplina que venho ministrando desde o final da década de 1990, com forte foco em modelos de negócios inovadores e métodos ágeis. O desafio atual para os cursos de administração está, em primeiro lugar, em compreender as transformações que estão em curso no mercado. Em segundo lugar, reinventar seu projeto pedagógico e a própria estrutura do curso, de maneira a conseguir entregar, ao mercado, um profissional adequado a essa realidade mais dinâmica.

Creio que não seria exagero dizer que os cursos de administração tenderão a aumentar o número de disciplinas. Ou de temas de estudo que busquem a compreensão de novos métodos ágeis de desenvolvimento de startups e do ecossistema de instituições apoiadoras: como incubadoras, investidores anjo, aceleradoras, capital de risco, espaços coworking, parques tecnológicos, etc. A inovação, cujo principal indicador é a adoção pelo mercado e sua rápida disseminação, necessita ocupar espaços mais amplos, no currículo.

Técnicas de empatia, ideação, Design focado no usuário, prototipação — todas de maneira recursiva e contínua — são aprendizados necessários nesses novos tempos de preferências que se transformam rapidamente. Outras transformações relacionadas são representadas pela força das redes sociais.

A grande empresa que realiza um investimento e permanece produzindo uma linha estável de produtos ou serviços está perdendo terreno, ou já não tem presença nos novos produtos, serviços e até mercados que vem sendo criados. Participar dessa transformação — que substitui o emprego estável numa estrutura hierarquizada, pelo protagonismo em estruturas mais horizontais de parcerias entre startups de vários segmentos —, requer provavelmente que os cursos de administração se insiram nesse ecossistema, desenvolvendo as novas competências necessárias ao administrador.

Tivemos, recentemente, dois cientistas que ganharam o prêmio Nobel por contribuir com pesquisas que ajudam a combater a pobreza no mundo. O que poderia ser feito para reduzir as desigualdades sociais no Brasil e no mundo? Quais caminhos o senhor visualiza como alternativas viáveis para solucionar este tema?

A sinalização dada pelo Prêmio Nobel ao premiar os economistas Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer, que pesquisam sobre a pobreza, é extremamente positiva no sentido de reconhecer a importância desse grave problema que continua a desafiar a sociedade global. Mas, além do tema, a metodologia usada pelos pesquisadores está muito alinhada às novas tendências metodológicas no campo da administração que dá um novo protagonismo aos experimentos.

As pesquisas dos três cientistas utilizavam experimentos que buscavam verificar a efetividade de políticas e ações voltadas às vítimas da pobreza. No empreendedorismo, os novos métodos de desenvolvimento ágil de startups, exemplificados por Eric Reyes e Steve Blank, utilizam métodos similares. O empreendedor foca inicialmente em uma espécie de “dor” do consumidor e em processo de imersão.

Para compreender melhor essa dor, desenha-se um produto ou serviço para eliminar essa dor, produz-se um protótipo, testa o protótipo com usuários e, de maneira recursiva, vai ajustando o protótipo e o desenho para ver se há um produto ou serviço capaz de solucionar a dor em grande escala. Além disso, uma das conclusões das pesquisas de Banerjee e Duflo é o de que mudanças organizacionais (objeto de estudo central na administração) tem mais impacto na redução da pobreza do que a disponibilidade de recursos adicionais em educação. Há, portanto, um importante papel a ser desempenhado pela administração na redução das desigualdades sociais.

Ter a satisfação de sentir que um trabalho digno e honesto é reconhecido pelo Estado e pela sociedade torna-se uma expectativa desafiadora. Infelizmente, o sucesso, num ambiente de incentivos conflitantes e de difícil conciliação, acaba dependendo da habilidade de contorná-los, seja conseguindo isenções especiais ou favorecimentos do Estado.

A compreensão dos incentivos danosos que o conjunto de leis elaboradas, sem avaliação criteriosa dos seus impactos multidimensionais na sociedade, é um grande desafio de gestão. Ela exige o protagonismo da área da administração, em aliança estreita com os campos do direito e da economia. O Brasil é constituído de um povo extraordinário, trabalhador, criativo e extremamente cordial.

Minhas visitas a acampamentos e assentamentos do MST, às favelas, às comunidades tradicionais na Amazônia, a realização de projetos pesquisando outros movimentos organizados e trabalhadores informais de rua trazem a certeza de que a comunidade de administração tem um grande trabalho e uma grande contribuição a dar para o desenvolvimento do Brasil. É um grande desafio de revisão sistêmica e reinvenção do Estado pelo viés da gestão.

E com relação às desigualdades de gênero, o que é mito e o que é verdade? Pergunto, ainda, o que poderia ser feito para que esses potenciais (em relação às características de cada gênero) fossem mais bem aproveitados?

Como cito no artigo “Relação entre Gênero dos Prefeitos e Qualidade das Políticas Públicas de Prevenção de Desastres Naturais”, publicado na Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional, há evidência de que quanto mais protagonismo tem a mulher, melhor qualidade de vida tende a ter a população afetada. Humberto Maturana chama a essas comunidades de matrísticas. Isto é, comunidades nem patriarcais, nem matriarcais.

Não há predomínio de um gênero sobre o outro, mas há a valorização das características próprias da mulher. Riane Eisler, em sua influente obra o Cálice e a Espada, discorre sobre evidências antropológicas de uma sociedade matrística na região de Creta há cerca de cinco mil anos. A capacidade de reconhecer esses valores matrísticos tanto em homens como em mulheres é um importante passo para construirmos uma sociedade mais equilibrada, pacífica e sustentável.

Em um mundo com recursos naturais esgotáveis (como o petróleo, minérios e até a água potável), e tendo em vista efeitos climáticos que assolam o planeta, que tipo de negócio sustentável (social e ambientalmente) é hoje de vanguarda, no mundo, e que poderia ser explorado em nosso país?

Isso traz para o campo da administração uma grande responsabilidade na construção de um mundo sustentável. Pensando a questão estrategicamente, os recursos naturais, que são esgotáveis por natureza própria, representam um dos maiores ativos que o Brasil possui. Nesse ponto, acredito que o governo poderia configurar a discussão da questão amazônica de maneira mais positiva.

Ao contrapor o uso e exploração das riquezas naturais na Amazônia à preservação da Amazônia, cria-se um aparente confronto cuja construção do argumento faz da Amazônia um recurso extinguível, pois, qualquer recurso, ao ser utilizado, eventualmente se extingue. Como está claro pelas manifestações de dirigentes de países economicamente mais avançados, a Amazônia é um objeto de desejo dos principais países do mundo. Algo tão cobiçado é um ativo estratégico de enorme importância para o Brasil.

A destruição da Amazônia não é e nem deve ser confundida com uma política do País. Garantir a soberania nacional sobre o território amazônico brasileiro é uma tarefa urgente, que independe de qualquer crítica ou interferência internacional. O Brasil precisa apenas agir, reforçando o controle aéreo e de fronteiras e reforçar sua capacidade de fiscalização e de policiamento para coibir a atuação ilegal de indivíduos, sejam empresários ou ONGs, que não respeitam os interesses do Brasil e da sua população.

Uma floresta, como a Amazônica, com a sua extensão e diversidade, não existe em lugar algum do mundo, o potencial comercial seja para a indústria farmacêutica, seja para a indústria do turismo, dentre tantas outras, só tende a aumentar. Nesse contexto, o administrador deve pensar menos em explorar, e mais em usar seus conhecimentos de gestão para preservar esse bem público, de grande valor estratégico.

No médio e longo prazo, tal abordagem dará uma importante contribuição a esse movimento global de preservação dos ecossistemas e consolidará a posição do Brasil como seu grande protagonista. Isso permitirá ao Brasil desenhar estruturas de gestão compartilhada que permitam a participação dos países interessados em contribuir para a sua preservação, pagando pelo seu uso e respeitando a integral soberania brasileira sobre essas áreas.

Veja a primeira parte da entrevista, clicando aqui.

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