Desconfiança na gestão pública é motivada pelo individualismo hipermoderno

Desconfiança na gestão pública é motivada pelo individualismo hipermoderno

O filósofo francês Gilles Lipovetsky abriu a programação do Fórum CFA de Gestão Pública com a palestra magna “Novos papéis nas relações da sociedade com o Estado”. O momento, muito disputado entre os participantes do evento, trouxe uma série de reflexões sobre gestão pública e hipermodernidade. A palestra foi mediada pelo diretor de Gestão Pública do CFA, Antonio José Leite de Albuquerque.

Lipovetsky começou falando dos impactos que o individualismo tem causado na esfera pública. Para tanto, ele fez um histórico para mostrar como isso aconteceu. “Nossa época se caracteriza pelo surgimento de uma segunda revolução –- em meados da década de 1960 –- do individualismo. Esta revolução institui o individualismo hipermoderno. Um individualismo que podemos chamar de narcisista”, afirma.

Essa revolução não impacta só a esfera pública, mas permeia toda a sociedade. Ela, segundo o palestrante, se manifesta na relação com a família, com a religião, no consumo, na moda, no lazer, na alimentação e, óbvio, na relação com a política.

No campo político, houve uma grande ruptura com sistemas ideológicos que marcaram estruturalmente a modernidade política depois do século 18, como o nacionalismo, a revolução, o comunismo, o socialismo e, o fascismo. “Todos eles perderam o essencial de sua credibilidade. Ou seja, não acreditamos mais em nenhum desses ideais. Perdemos o amor pelos grandes ideiais políticos e isso é marcado, sobretudo, pelo individualismo”, disse o francês.

Outra grande mudança é a perda da confiança na classe política. Para Lipovetsky, os cidadãos não se reconhecem mais naqueles que os representam e desconfiam também da justiça, dos sindicatos, das empresas e das mídias. Isso é caracterizado, por exemplo, pelo forte crescimento do abstencionismo de protesto e do elevado número deo votos em branco.

Essa realidade permeia muitos países, não sendo exclusividade do Brasil. A maioria de cidadão na Espanha, por exemplo, declara não confiar mais nos partidos. “Na Europa, nem na União Européia eles acreditam mais”, alertou.

Corrupção: mal do século

A corrupção não é algo novo, mas ganhou mais destaque na era do individualismo hipermoderno defendido por Lipovetsky. “A cultura individualista dissolve a força de obrigação dos mandamentos morais, ela faz explodir os antigos enquadramentos tradicionais e religiosos em benefício primeiramente doe “mim mesmo”, de cada um por si, do ganho em primeiro lugar”, citou o filósofo.

Mas nem tudo é ruim. Apesar do quadro de desconfiança, ele acredita que o desinteresse na política não é absoluta. Há cidadãos, segundo Lipovetsky, que têm lutado por outras frentes. “Vê-se desenvolver-se formas inéditas de envolvimento do cidadão que não seguem a via eleitoral clássica. As formas de mobilização e as atividades políticas se desenrolam fora dos partidos. Estão progredindo novas formas de solidariedade coletiva, novas formas de questionamento e de denúncia do poder. O que se articula é uma democracia da expressão em que os cidadãos possam intervir diretamente, uma democracia de supervisão dos poderes pela sociedade civil e não mais monopolizada pelos partidos”, afirmou.

Caso americano

Lipovetsky comentou sobre as eleições dos Estados Unidos que culminaram na vitória polêmica de Donald Trump à Casa Branca. O que aconteceu naquele país reflete essa descrença da população com relação à coisa pública. Isso é refletido nas urnas e no número crescente de cidadãos que votam contra um candidato e, por isso, elegem pessoas improváveis.

Segundo o filósofo, a responsabilidade do Estado é de preparar o futuro para as novas gerações. Para ele, responder apenas às exigências do presente é uma falta maior e uma forma de irresponsabilidade  pública. “Devemos, para evitar os malefícios do hiperliberalismo, construir um social-liberalismo que combine flexibilidade, inovação e proteção social. É por esta via política que a ação pública poderá conseguir responsabilizar os homens, escapar às ameaças do hiperliberalismo e do populismo.”, finalizou o palestrante.

Com o tema “Estratégias transformadoras nas relações entre sociedade e o Estado”, o Fórum reúne, de 6 a 8 de junho, especialistas renomados para discutir temas ligados à gestão pública. As inscrições estão esgotadas, mas é possível acompanhar o evento na íntegra pelo CFAPlay. Todo o Fórum é transmitido, ao vivo, por meio da TV e do Facebook do CFA. Confira em www.cfaplay.org.br e www.facebook.com/cfaadm. Use a hashtag #Fogesp2018 nas redes sociais e faça parte deste evento.

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