Convivendo com a incerteza

Convivendo com a incerteza

O segundo dia do Enbra começou com uma discussão subjetiva: abordar a incerteza, que absorve dependência pelo desconhecido e insegurança quanto ao futuro, algo como calmaria num oceano que pode se tornar revolto a qualquer momento.

Para falar sobre isso, dois palestrantes de peso: Dorival Donadão, administrador com especialização em Recursos Humanos e Marketing pela FGV-SP e programa de extensão na Pace University, nos EUA; e José Ernesto Bologna, bacharel, licenciado e pós-graduado em Psicologia e em Administração de Empresas, pela PUC-SP e pela Universidade Mackenzie em São Paulo, com extensões pela Bowling Green State University, Ohio, e pela University of Kalamazoo, Michigan, ambas nos EUA. Eles foram mediados pelo diretor de Desenvolvimento Institucional do CFA, Rogério Ramos.

Se a incerteza veio para ficar, como conviver com ela? O incerto não é considerado indeciso. Ele pressupõe a adoção de princípios e ações que o tornem mais palatável e menos intimidador. Compromissos futuros e até mesmo o sistema atual de valores devem ser repensados. O ponto crucial da incerteza não é achar que tudo mudará, mas como estaremos abertos à mudança, preservando o que julgamos essencial.

Bologna iniciou afirmando que é impossível falar de incerteza sem falar do acaso. “Qual é o papel do acaso?” Ele explicou que as ciências naturais, há muito tempo, já nos trouxeram a questão do acaso. Segundo ele, o discurso da razão espera que todas as coisas tenham uma causa, mas que a única certeza é a incerteza.

A ele coube uma análise mais ampla, comportamental, filosófica e existencial do assunto. Segundo o palestrante, a angústia nasce do nosso desapontamento diante do fato de que as coisas não acontecem da forma como nós achamos que deveria, de acordo com os nossos scripts. “Todos nós temos teorias de como as coisas deveriam ser, mas elas não são. Por isso, para que a discussão seja a partir de uma contribuição fora da caixa, inovadora e corajosa, é preciso colocar a razão no banco dos réus, pois a vida pulsa em torno do desejo. Quem governa o mundo não é a razão, é o desejo e ele tem a sua própria autonomia; ele vem na nossa consciência sem que tenhamos muito controle, nos apaixonamos sem querer, deixamos de estar apaixonados sem querer e, portanto, a contribuição que o psicólogo pode trazer para os administradores chama-se ‘autonomia do desejo’. Essa é a contribuição organizacional que podemos trazer”, afirmou.

Esses desejos que invadem o inconsciente também invadem a consciência no âmbito do trabalho. O papel dos humanistas junto aos administradores, segundo Bologna, é trazer a reflexão acerca do fato de que a vida tem sua própria pulsação, inclusive no campo organizacional. Ouvir o desejo, geralmente reprimido pela razão, é uma boa saída para se tomar decisões importantes.

Já Donadão fez uma análise mais direcionada para o ambiente profissional. Ele afirmou que a incerteza é consequência da evolução. “Nós não estamos parados, estamos evoluindo. Tamanha mudança causa em nós inquietação. De repente tudo é incerto e vulnerável, mas o pano de fundo que todos nós temos que colocar para nossos profissionais e empresas é que isso é um contexto de evolução”, disse.

Para ele, o segredo de como transformar a incerteza em aliada no mundo corporativo está no conhecimento. “Mudança traz consigo a imprevisibilidade. Onde está a resposta? Não está só na tecnologia, mas em nós, na nossa cabeça. Uma organização efetiva tem que cuidar de três “Ms”: modelo de negócio; modelo de gestão – que é onde entram os administradores; e modelo mental.

É preciso o cuidado de não se paralisar com tanta informação, não se conformar, mas usar toda transformação a favor. Ele cita duas características fundamentais para quem quiser fazer essa transição de forma eficaz: capacidade de julgamento e análise crítica. “É um saber que está em cada um de nós; de abrir um novo campo de visão do que está acontecendo. Não sejamos vítimas. O que a incerteza faz pode ser um grande vitimismo, mas você vai ter que apostar e fazer uma opção”, concluiu.

Assessoria de Comunicação CFA

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