CFA discute fake news com pesquisadores franceses

CFA discute fake news com pesquisadores franceses

Com o objetivo de contribuir com as discussões e entender quais são os impactos das fake news, que ganharam enorme repercussão nos últimos tempos, o Conselho Federal de Administração (CFA), em parceria com a Embaixada da França, promoveu nesta quarta-feira (31) a palestra: “Fake News – Fatos e Impactos: Como tratar a informação na era pós-verdade”.

O diretor da Câmara de Gestão Pública do CFA (CGP), fez as considerações iniciais e saudou o ministro da Embaixada da França, Gilles Pecassou. “Estamos aqui para tratar de um assunto de extrema importância. Não se trata só de uma questão política, a situação vai muito além e a experiência dos expoentes aqui presentes da Embaixada Francesa, do ministro, vem nos dar esse aporte. Vem pavimentar a forma de como nós tenhamos que tratar as fake news. Nós sentimos na pele nos últimos meses o quão grave é essa realidade que avança no mundo corporativo e em várias cearas e vários vieses da administração pública no Brasil. Cabe a mim só agradecer por estarmos aqui e eu creio que estamos dando um start em tantas outras ações que serão desenhadas, arquitetadas, alinhas, efetivadas no decorrer dos próximos anos”, disse.

O presidente do CFA, Wagner Siqueira, fez a abertura do evento e destacou a contribuição da vivência europeia sobre o assunto. “O Estado Francês é muito mais parecido com o nosso País do que os Estados Unidos. Por muito tempo ficamos focados na experiência estadunidense, então trouxemos um outro ponto de vista com os pesquisadores franceses. Eles também vieram acompanhar nosso processo eleitoral”, disse.

Siqueira também lembrou situações antigas na política brasileira em que as fake news foram marcantes, assim como nos pleitos atuais de 2016, nos EUA, e de 2018 aqui no Brasil. “Em 1950, nas eleições entre Getúlio Vargas e o Brigadeiro Eduardo Gomes, houve uma notícia falsa que circulou dizendo que Gomes não precisava de voto dos marmiteiros. Isso teve um peso enorme na vitória de Getúlio.”

A palestra foi ministrada pelos pesquisadores franceses Dominique Cardon, professor da Universidade de Paris Est, e Patrick Le Bihan, PhD em Ciências Políticas pela Universidade de Nova Iorque. As pesquisas de ambos seguem a linha de tentar mensurar os efeitos da fake news que, segundo eles, ainda não são bem conhecidos.

Cardon abriu a palestra falando dos seus estudos e afirmou que as fake news assumem maior circulação quando elas chegam ao que ele chamou de subsolo da web, mas que só vão circular realmente quando a grande mídia assume o debate e, sobretudo, quando a troca de informações é transversal, ou seja, quando a própria população começa a comentá-las. “Não quero dizer que as fake news não têm importância, não quero diminuir as inquietações dos pesquisadores, mas fico me perguntando se não estamos fazendo demais, se não estamos dando poder excessivo às novas mídias”, disse.

Ele destacou que a maioria das pessoas se expõe na internet a conteúdos que confirmem argumentos e ideias nos quais elas já acreditam anteriormente. A isso, deu o nome de “exposição seletiva”. Mas reconheceu que há produção massiva de notícias manipuladas, “principalmente por sites e blogs da extrema direita”. Nos EUA, por exemplo, segundo o pesquisador, as fake news não representaram nem 1% do conteúdo ao qual os eleitores estiveram expostos durante as eleições, contrariando o discurso de personalidades, políticos derrotados e, inclusive, de alguns veículos de comunicação do país.

Ao citar falar sobre exposição seletiva, lembrou do caso das eleições dos EUA que colocaram Donald Trump como presidente e explicou que não é possível medir se a pessoa foi convencida por uma notícia que leu, ou se já iria votar em determinado candidato e só recebeu esse conteúdo. “Não sabemos se o eleitor de Trump já acreditava nas fake news antes e por isso votou ou se ele foi convencido pelas fake news e depois votou. É a mesma história do ovo e da galinha”, argumentou.

Patrick Le Bihan, PhD em Ciências Políticas pela Universidade de Nova Iorque, afirmou que o nível de escolaridade não influencia diretamente o compartilhamento ou não das informações falsas. “No debate público, temos a noção de que o eleitorado que for mais educado e racional poderá controlar melhor o governo. Mas temos resultados que mostram que não é necessariamente verdade que esse eleitor fará mais pressão no trabalho de um político”, disse.

O pesquisador também disse que estão percebendo um eleitor mais emotivo, que não faz suas escolhas baseadas apenas no racional porque não tem encontrado um candidato que “não seja corrompido”. “Digamos que temos um eleitor emotivo. Ele não aguenta mais corrupção, sabe que não tem como mudar a realidade, uma vez que todos os candidatos são corruptos. Diz que não tem jeito, que não tem solução e não consegue encontrar o equilíbrio. A partir disso, temos a criação de um novo fenômeno: o eleitor que estiver cada vez mais emotivo e menos racional será o mais vulnerável às fake news”, explicou.

Os dois pesquisadores concordam que a criminalização das fake news não é vista com bons olhos pela academia. “É inútil, perigoso e contraproducente. Pode atingir a liberdade de expressão, e como um juiz vai conseguir discernir a linha tênue entre verdade e mentira? Ao torná-las clandestinas, vamos fortalecer esse sistema, porque vão continuar a produzir mais e com o argumento de que ‘estão nos impedindo de falar a verdade’. A regulamentação das plataformas, como Facebook, seria a melhor solução”, afirmou Le Bihan.

A íntegra da palestra está no facebook do CFA e no CFAPlay.

Assessoria de Comunicação CFA

 

 

 

 

 

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