Má gestão dá mais prejuízos ao Brasil do que corrupção

Má gestão dá mais prejuízos ao Brasil do que corrupção

Na visão de especialistas, fenômenos estão interligados

A má gestão, junto com a corrupção, é responsável por prejuízos até pouco tempo incalculáveis. Segundo dados do MPF, de 2017, o Brasil perde anualmente cerca de R$ 200 bilhões com desfalques aos cofres públicos. Apenas na Petrobrás foram descobertos desvios que ultrapassam R$ 6 bilhões.

Arthur Igreja, professor e pesquisador – FGV

Para Arthur Igreja, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a má gestão é responsável por prejuízos até maiores do que a praticada pela corrupção. Os desvios de recursos na Petrobrás trouxeram prejuízos de pelo menos R$ 50 bilhões, além da desvalorização da empresa, em mais de R$ 436 bilhões. 

O pesquisador acredita que o prejuízo financeiro não seria o mais grave, mas sim o que chama de amortecimento moral. Para ele, é mais danosa a ideia de que a corrupção é de alguma forma aceitável. “Isso faz com que muitas pessoas passem a acreditar que podem alterar notas de restaurante e sonegar impostos, pois se os políticos podem, por que o resto da população não poderia fazer?”, ressaltou.

Na visão do especialista, a cultura da corrupção é facilitada na medida em que punições brandas, aliadas a processos administrativos falhos, tardam em responsabilizar infratores de variados escalões, sobretudo, na esfera pública. Contribui, ainda, para a destruição da confiança, que é a base da burocracia.

O mau gerenciamento, por outro lado, cria não apenas um ambiente propício para a corrupção, mas também é ineficiente ao restabelecer os prejuízos. Na esteira dos processos administrativos ainda estariam os erros de planejamentos e a falta de previsibilidade.

De acordo com o pesquisador da FGV, o Brasil perde oportunidades de ganhos ao não ter um planejamento estratégico de longo prazo. “O capital vem para ser remunerado em logo prazo, mas falta ambiente e previsibilidade para o futuro. Não conseguimos mostrar que existe um plano maior, por isso, existe o medo de que tudo pode mudar de quatro em quatro anos”, explica Igreja. 

Mauro Kreuz – Presidente do CFA

Para o presidente do Conselho Federal de Administração (CFA), Mauro Kreuz, a má gestão é sinal de que é preciso investir em preparação dos gestores de instituições públicas e privadas, pois há equívocos conceituais e de escopo na elaboração de projetos. “Vemos projetos mal-concebidos, mal-executados e mal-gerenciados. Por isso, entregam resultados pífios que frustram as expectativas da sociedade como um todo e, também, muitos prejuízos”, avaliou. 

Kreuz compartilha com a visão de Arthur Igreja, de que na medida em que o país não tem um plano estratégico de nação, ele se torna refém de “programas de governo casuísticos e de interesses desconectados do povo”. Ele também acredita que a profissionalização dos gestores públicos é fundamental para que o Brasil se torne mais competitivo. “O baixíssimo nível profissional na gestão pública, atrelado ao seu inadequado desempenho, é o verdadeiro protagonista do pesadelo que enfrentamos e da não entrega de serviços públicos de qualidade. Mais do que os recursos públicos desviados”, concluiu.

PÚBLICO x PRIVADO

Uma das possíveis explicações de a corrupção e a má gestão estarem relacionados é a falta de conhecimento sobre o que é público e privado, explica a professora e pesquisadora, da Universidade de Brasília (UnB), Josivânia Farias. Para ela, é preciso desenvolver uma cultura, no Brasil, de separação do que é público e privado, e de que é preciso governança (boas práticas administrativas) e competências técnicas para combaterem a corrupção.

“Não tem como falar em combate à corrupção sem abordar o desenvolvimento da educação por um todo. Seja do ponto de vista ético ou técnico, é preciso ter o conhecimento adequado para constatar onde está o erro gerencial”, avalia.

A noção sobre o que é bem público ou privado, na visão da pesquisadora, é fruto de equívocos culturais que podem culminar na corrupção. Embora os dois coexistam, o bem público não pode ser visto como objeto exclusivo da vontade de quem o usa, mas sim de que a responsabilidade por sua preservação é coletiva.

Profª Josivânia Farias – pesquisadora da UnB.

 “É preciso existir, por exemplo, a consciência de que se uma rua é pública, então ela também é minha. Mas se ela também é minha, isso implica de que não posso jogar papel no chão, senão terei de limpar”, resumiu.

Por Leon Santos 

Assessoria de Comunicação CFA

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