Em um ano emblemático para a profissão, marcado pelos 60 anos de regulamentação da Administração, o Conselho Federal de Administração (CFA) consagrou uma pesquisa que dialoga diretamente com um dos fenômenos mais debatidos no mundo do trabalho contemporâneo.
A grande vencedora do 1º lugar na categoria Artigos Acadêmicos, voltada a estudantes de cursos de Administração, foi Audileia Alves da Paixão Santos, aluna do Bacharelado em Administração Pública da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), em Minas Gerais.
O artigo premiado — “A demissão silenciosa e o ruído do desengajamento: O papel da Administração diante do desafio do quiet quitting” — foi desenvolvido em coautoria com os professores Alexandre de Cássio Rodrigues, Thiago Henrique Martins Pereira e Luiz Antônio Abrantes, e propõe uma reflexão profunda sobre o fenômeno conhecido como quiet quitting.
Quando o silêncio fala mais alto
A pesquisa parte de uma provocação contemporânea: o que significa, de fato, a chamada “demissão silenciosa”?
Para Audileia, o fenômeno não deve ser reduzido a uma suposta falta de comprometimento individual. Pelo contrário. O estudo demonstra que a redução deliberada do engajamento — quando o trabalhador passa a cumprir apenas o mínimo necessário para manter o emprego — é, muitas vezes, uma resposta racional a ambientes organizacionais que exigem muito e reconhecem pouco.
“Como servidora pública e estudante, observo de perto as mudanças nas dinâmicas de trabalho e o esgotamento das relações tradicionais de gestão. O marco dos 60 anos da regulamentação da profissão de administrador no Brasil me pareceu o momento ideal para refletir sobre o futuro da nossa área”, afirma a autora.
Ao cruzar literatura internacional com dados recentes sobre o Brasil, o artigo aponta que o desengajamento é estrutural e está ligado a fatores como ausência de reconhecimento, falta de perspectivas de crescimento e desalinhamento entre práticas corporativas de controle e os valores que os trabalhadores priorizam hoje, como flexibilidade e saúde mental.
A conclusão é contundente: a Administração precisa resgatar a construção de confiança e propósito, indo além das métricas puramente operacionais.
Pesquisa com os pés na realidade
Conciliar a produção científica com a rotina intensa de trabalho na Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) e os estudos na graduação foi um dos principais desafios enfrentados por Audileia.
“Foi preciso articular teorias clássicas da Administração com dados muito recentes sobre engajamento no Brasil. A parceria com meus mentores foi fundamental para manter o rigor metodológico e o foco, mesmo diante do cansaço do dia a dia”, relata.
A escassez de estudos empíricos específicos sobre quiet quitting no contexto brasileiro também exigiu criatividade e profundidade analítica. O resultado foi uma pesquisa robusta, conectada à realidade nacional e comprometida com soluções práticas.
Emoção e validação de uma trajetória
Receber a notícia do 1º lugar no Prêmio Belmiro Siqueira de Administração 2025 foi um momento de forte emoção.
“Foi um misto de surpresa e alegria. Lembrei de cada noite de estudo e dos fins de semana dedicados à pesquisa. Conquistar o 1º lugar justamente no ano em que celebramos os 60 anos da nossa profissão é uma validação imensa de que unir prática no serviço público e pesquisa acadêmica não só é possível, como necessário”, compartilha.
A conquista simboliza não apenas o reconhecimento individual, mas também a força da produção acadêmica desenvolvida nas instituições públicas de ensino e o papel estratégico da Administração Pública na transformação social.
Um convite às novas gerações
Ao olhar para a edição de 2026 do prêmio, Audileia deixa um recado inspirador aos futuros participantes:
“Não tenham medo de questionar o status quo da nossa profissão. Busquem temas que realmente incomodem na prática diária da Administração e transformem essa inquietação em pesquisa. A teoria precisa servir à resolução de problemas reais. E nunca esqueçam: a construção do conhecimento não é solitária.”
Sobre o Prêmio Belmiro Siqueira de Administração
O Prêmio Belmiro Siqueira de Administração foi criado pelo CFA em 1988. A proposta é divulgar e promover a valorização dos estudos realizados por Administradores e estudantes dos cursos de bacharelado em Administração que contribuam para o desenvolvimento da profissão e da ciência da Administração no Brasil.
O Prêmio recebe o nome do Professor e Administrador Belmiro Siqueira, patrono dos Administradores, título que lhe foi outorgado “post-mortem”. Belmiro, que entrou para a história por conta da sua luta em prol da valorização da Administração, lecionou no Departamento Administrativo do Serviço Público.
Ana Graciele Gonçalves
Assessoria de Comunicação CFA
